Ti Vinhado - Uma Canção

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Dois homens bons juraram fé,
No monte a luz descia,
Julgavam o velho Ti Vinhado,
que o campo envelhecia.
Nas mãos traziam ferro e lei,
E um cântico de glória,
Juraram que do mal que sei,
Se faria nova história.
De foice em riste o derrubaram,
Cantando à luz do dia,
E do sangue doce o provaram,
Sem pena, nem agonia.
Ao chão caiu, de seiva feito,
O tronco que era perfeito,
E o vento calou o seu direito,
No campo, o corpo desfeito.
Cavaram-lhe a cova funda,
Por entre o pó e o barro,
E o sol, em dor profunda,
Chorou no seu catarro.
Pisaram-lhe as folhas, o fruto,
Com pés de moço e velho,
E o campo fez-se em luto,
Vestido de vermelho.
O mosto ferveu na arca escura,
Cantando em dor contida,
E a terra, firme e dura,
Guardou-lhe a seiva antiga.
Vieram homens de riso largo,
Beber o que restava,
E o vinho, rubro e amargo,
A alma lhes queimava.
Esqueceram-se do tronco morto,
Do chão que os sustentava,
E o homem, cego de conforto,
Do sangue se embalava.
O tempo passou, e a geada,
Cortou o campo inteiro,
Mas da raiz já condenada,
Brotou um verde primeiro.
O vento trouxe o cheiro antigo,
Do bago e da canção,
E o monte, que fora inimigo,
Pediu ao céu perdão.
Ti Vinhado ergueu-se ao sol,
De novo, sem rancor,
E deu o fruto ao mesmo rol,
de riso e de labor.
Mas diz o povo, a cada ano,
Que o vinho traz memória,
De um velho crime que é humano,
Perdido na história.
Por isso, ao erguer o copo,
O homem, sem pensar;
bebe a seiva que resta,
ao qual ousou matar.
Ao fim recorda a cena,
No monte a luz renasce,
Pois a morte é pequena,
Se o mundo inteiro refaz-se.
